Deus me livre do mal
liberto eu
libertino
da rédea crivada
a profunda linha do destino
Zeca Pestana
Deus me livre do mal
liberto eu
libertino
da rédea crivada
a profunda linha do destino
Zeca Pestana
Quem reside na vitrine iluminada
é só um molde alucinado
marionete sem o fio
ilusão de ótica
engana
olhar vitrifica
sobrevive ao trejeito
clarificada tez de porcelana
o boneco imita a vida
dublê do sonho
vivifica
passo a passo
na imagem infantil
cria a sua ilha da fantasia
Zeca Pestana
Amoral
ser um canibal
dentes desejosos de carne
o predador na sexta-feira ímpar
algarismo cabalístico
início de noite
bestial
uma paixão
no toque agridoce
sem saber qual é a meta
provocar alguém de sangue quente
predisposta vítima indefesa
nem questiona o nome
na solidão loquaz
oferecida
aceita o papel
satisfeito os apetites
assina em uivos lacerantes
visto a catarse mundana que vivo
interlúdio breve da razão
adormece ao dia
o lado B
Zeca Pestana
Código
em cadeado
limite insuportável
no buraco da fechadura
a presença quase indesejável
o esconderijo do enigmático valor
procrastinado a me sentir ateu
cabisbaixo e de pé firme
no nó da madeira
a perpétua lei
o perigo
em aço inox
não abro nem ferrando
Zeca Pestana

ao léu
a felicidade
resguardo do tempo
mareja entre a crista da onda
uma mensagem deixada na garrafa
perto do porto ancoradouro
a mesura do destino
matura a idade
ao céu
Zeca Pestana

Despistarei a tristeza
procuro o par
número exato
danço freneticamente
por uma noite
dispenso gente chata
pára o pensar
deliciosa irreverência
só nós à sós
descortinando na luz
vira mundo
mundo gira
de nuvem passeando
na manhã
seremos a festa
sem diplomacia barata
iremos brindar ao entardecer
para que a dor brilhe menos amanhã
Zeca Pestana
Carência sem sabor de aventura
afoga na malícia da gula
ao deleite chocolate
sedutoramente
vitaliza
poção da magia
até parece uma bruxaria
atração apetente
hipnotiza
sombras de veludo
na realidade embaçada
longa noite marrom de mil horas
romance escrito em livro
miragem mesclada
narcotiza
livre graciosidade
escorre por entre os dedos
faminta lambida de puro prazer
no creme que derrete
confundem-se
Zeca Pestana
Quente
sou arisco
pavio da dinamite
alimento-me com pimenta
temperadamente
sensível ao toque
chego no ponto de ebulir
rubra insinuação
despudoradamente
o gosto na ponta da língua
Há risco de esquentar um coração
veste vermelha que despida
exibe lasciva intenção
carne ao ponto
vai arder
Zeca Pestana
Promessa
subscrita com giz
uma mensagem de amor
não soube suportar a intempérie
o lado lisérgico do cupido
esbarrando forte
apagou
afeto sem resistência ao relento
a arte do pó na prateleira
efêmero suspiro
espargiu
Entre os lados opostos da tal laranja
cada qual dissecou seu quinhão
no peso de meias-verdades
magoou o lúcido solo
quando acidulou
num delírio
diário
Zeca Pestana
Longitude
atol temporal
metáfora do córtex
ermo refúgio castanho
na vaga escassez emocional
é proibido a entrada de estranhos
fronteiras em entrelinhas
seremos os únicos
sem a idade
mandala
senha mantra
no verbo pretérito
muito mais que perfeito
olháreis a passagem do longo dia
Zeca Pestana
Acetinada
moça enamorada
esconde a suprema fonte
aonde bebe com gulosa paixão
absorve carinhos
absolve os mistérios
se entrega ao devaneio profano
na alusão do querer
extrair um gole
ambrosia
divinal egoísmo do que é seu
entorpece em realidade
sentindo na boca
girar o céu
quimera
Zeca Pestana

De mentiras
tolas
ocas
tuas
de mente irás
em busca de algo
Zeca Pestana
Solidão
janela cega
quinta-essência
rédeas na alucinação
a percepção parcimoniosa
penumbra levemente penetrável
entre frestas de eternidade
nos vultos da parede
festas em falsete
à meia-luz
arcano
Zeca Pestana
Frescor
tímido sopro
o natural menestrel
louva-à-deus proclamando
alardeia o tônus da nova estação
no rígido caule despido
em folhas soltas
ida sem volta
sazonal
nutrem a terra ávida por húmus
uma fração de nossas vidas
morrendo aos poucos
numa viagem
outonal
Zeca Pestana
Degusta o amargo doce do prazer
serve o desejo sem censura
em borbulhante vinho
verde esmeralda
original taça
mamilo
Virgem camélia branca no torço
do lado direito da cabeça
sensível ao toque
escurece
flui mágoa
goza no gozo
sede eterna da alma
com olhos rasos d'água
acalentam o calor de baixo
soberana carne ardente
a vulva vermelha
flor quente
o ente
Ferida em ponta da adaga firme
força de esquerda
nua e crua
retrai
não reconhece a própria volúpia
no pior do claustro
negro abissal
questiona o clarão de luz e fogo
a ternura do jugo maligno
infidelidade do fiel
liberta a tara
no vil sabão que lava tudo
o pecado sujo
evangeliza o pudor
o sexo transcedendo o sexo
divisível como o pão
homem e mulher
fundido
Entoa de propósito o ponto
o nome sem batismo
invoca a fêmea
Pombagira
gira
Zeca Pestana