Solidão
janela cega
quinta-essência
rédeas na alucinação
a percepção parcimoniosa
penumbra levemente penetrável
entre frestas de eternidade
nos vultos da parede
festas em falsete
à meia-luz
arcano
Zeca Pestana
Solidão
janela cega
quinta-essência
rédeas na alucinação
a percepção parcimoniosa
penumbra levemente penetrável
entre frestas de eternidade
nos vultos da parede
festas em falsete
à meia-luz
arcano
Zeca Pestana
Frescor
tímido sopro
o natural menestrel
louva-à-deus proclamando
alardeia o tônus da nova estação
no rígido caule despido
em folhas soltas
ida sem volta
sazonal
nutrem a terra ávida por húmus
uma fração de nossas vidas
morrendo aos poucos
numa viagem
outonal
Zeca Pestana
Degusta o amargo doce do prazer
serve o desejo sem censura
em borbulhante vinho
verde esmeralda
original taça
mamilo
Virgem camélia branca no torço
do lado direito da cabeça
sensível ao toque
escurece
flui mágoa
goza no gozo
sede eterna da alma
com olhos rasos d'água
acalentam o calor de baixo
soberana carne ardente
a vulva vermelha
flor quente
o ente
Ferida em ponta da adaga firme
força de esquerda
nua e crua
retrai
não reconhece a própria volúpia
no pior do claustro
negro abissal
questiona o clarão de luz e fogo
a ternura no jugo maligno
infidelidade do fiel
liberta a tara
no vil sabão que lava tudo
o pecado sujo
evangeliza o pudor
o sexo transcedendo o sexo
divisível como o pão
homem e mulher
fundido
Entoa de propósito o ponto
o nome sem batismo
invoca a fêmea
Pombagira
gira
Zeca Pestana

Evanesceu
de você em mim
no labirinto do desejo
floresce o vapor da paixão
conjunção grafada na pele morna
ao profundo etéreo anil
maliciosamente vai
a leve lavanda
entardeceu
Zeca Pestana

Aquela febril noite de temporal
enxaguou as incertezas
tornou em lama
a cama
A cólera impiedosa do altíssimo
o inenarrável conflito
fogo e água
tremeram as certezas
pedi um sinal
vívido
Entre as idas brumas úmidas
por poucos segundos
juro que vi
incrível
a criação do arco-íris
Zeca Pestana